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Onde comecei, ali terminarei

Foto do escritor: Aline Mendes
Aline Mendes
23 de jul.
2 min de leitura

Atualizado: 16 de set.

Uma filosofia do tempo sobre o dia em que completei mais uma volta.

Bússola aberta sobre livro antigo, com caneta, óculos e bilhetes manuscritos em mesa de madeira junto à janela.

Hoje é o meu aniversário.

Curiosamente, em vez dos clichês sobre novos ciclos, desejos e recomeços, acordei pensando numa velha frase atribuída a Shakespeare: a de que fazer aniversário é apenas aproximar-se da morte.

Entretanto, a frase é falsa; o bardo nunca a escreveu.

Ainda assim, a internet acertou, por acidente, no espírito da coisa.

Minha filosofia do tempo hoje não é sobre acumular anos, mas sobre assistir à bússola fechar o seu círculo — exatamente como Cassius previu em Júlio César antes de seu ato final.

Na manhã do seu próprio aniversário, antes de entrar em sua última batalha, o general romano confessa o peso da data a um amigo: “Eu comemoro hoje mais um ano de nascimento (...) e em parte eu creio hoje em maus presságios”. Cassius, que sempre fora um homem puramente racional, muda sua própria filosofia diante da urgência do tempo. O aniversário, para ele, deixa de ser uma festa e passa a ser o dia em que ele deve encarar os próprios fantasmas e jogar tudo numa só batalha.

Horas mais tarde, no calor do combate e sentindo o fim bater à porta, ele não lamenta os anos que se foram. Ele apenas constata a geometria exata do destino:

“Nesta data eu nasci. Fecha-se o ciclo.

E onde eu comecei devo acabar.

Minha vida esgotou-se.”(Cassius em Julio César - Ato V, Cena III)

Não é uma celebração da morte.

É um lembrete sobre a finitude da vida.

Há algo de honesto no passar do tempo, ele não apenas passa. Ele nos transforma ao passo que nos aproxima do fim e, não por acaso, torna cada escolha mais significativa.

Aniversários costumam ser tratados e celebrados como o acumulo de anos.

Hoje prefiro pensá-los como a oportunidade de observar, ainda que por um instante, o desenho completo da bússola.

Cada volta encerra alguma coisa.

Cada volta inaugura outra.

E talvez seja exatamente isso que torne o tempo tão precioso.

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