Enquanto ainda estamos no mar
Atualizado: 16 de set.
Este ensaio discute livremente o enredo e o desfecho de O Velho e o Mar.

O Velho e o Mar é daqueles livros que nos deixam vidrados ao terminar a última página.
Não sei como demorei tanto para lê-lo.
A história, à primeira vista, é simples: um velho pescador, há 84 dias sem conseguir pescar um único peixe, parte sozinho para o mar e trava uma batalha incansável com o maior marlim que já encontrou.
Mas há muito mais ali.
Há a lealdade do garoto. Compaixão, cuidado, atenção. Uma amizade construída sem interesse e que não desaparece quando Santiago deixa de ser alguém de quem se espera algum resultado.
E há, principalmente, a persistência do velho.
Foi nela que mais me reconheci.
Santiago carrega seu fardo até o limite. Precisa provar — talvez aos outros, talvez a si mesmo — que ainda é capaz.
E quantas vezes fazemos exatamente a mesma coisa?
Insistimos em projetos incertos. Investimos tempo, energia, dinheiro e uma parte considerável de nós mesmos porque acreditamos no resultado.
Até aí, tudo bem.
O problema começa quando chegamos ao fim da linha e continuamos.
Não necessariamente porque ainda acreditamos que dará certo, mas porque desistir parece pior.
Depois de tudo o que já investimos, como abandonar?
Depois de todo o esforço, como aceitar que talvez não haja recompensa?
Assumir o fracasso pode parecer mais difícil do que continuar tentando.
Então continuamos.
Mais um pouco.
E depois mais um pouco.
Até que, às vezes, chegamos ao fim exaustos e descobrimos que o troféu não veio.
Santiago consegue o peixe.
Depois de dias de luta, dor, fome e exaustão, ele vence uma batalha que parecia impossível.
Mas não consegue levá-lo para casa.
Do enorme marlim pelo qual quase entregou a própria vida, resta apenas o esqueleto.
Isso torna Santiago um fracassado?
Não acredito que Hemingway ofereça uma resposta tão simples.
Talvez seja justamente por isso que a história permaneça conosco depois da última página.
Existe coragem em continuar quando tudo parece perdido.
Mas existe também uma coragem sobre a qual falamos muito menos: reconhecer quando continuar deixou de ser perseverança e passou a ser apenas incapacidade de desistir.
Saber seguir em frente é difícil.
Saber a hora de largar talvez seja ainda mais.
Existe coragem em continuar quando tudo parece perdido.
Existe coragem em reconhecer que chegou a hora de parar.
O problema é que, enquanto ainda estamos no mar, não sabemos qual delas a vida está nos exigindo.
Comentários