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Enquanto ainda estamos no mar

Foto do escritor: Aline Mendes
Aline Mendes
13 de jul.
2 min de leitura

Atualizado: 16 de set.

Este ensaio discute livremente o enredo e o desfecho de O Velho e o Mar.

Homem de chapéu em barco no mar ao pôr do sol, com gaivotas e texto: Enquanto ainda estamos no mar; ensaio literário.

O Velho e o Mar é daqueles livros que nos deixam vidrados ao terminar a última página.

Não sei como demorei tanto para lê-lo.

A história, à primeira vista, é simples: um velho pescador, há 84 dias sem conseguir pescar um único peixe, parte sozinho para o mar e trava uma batalha incansável com o maior marlim que já encontrou.

Mas há muito mais ali.

Há a lealdade do garoto. Compaixão, cuidado, atenção. Uma amizade construída sem interesse e que não desaparece quando Santiago deixa de ser alguém de quem se espera algum resultado.

E há, principalmente, a persistência do velho.

Foi nela que mais me reconheci.

Santiago carrega seu fardo até o limite. Precisa provar — talvez aos outros, talvez a si mesmo — que ainda é capaz.

E quantas vezes fazemos exatamente a mesma coisa?

Insistimos em projetos incertos. Investimos tempo, energia, dinheiro e uma parte considerável de nós mesmos porque acreditamos no resultado.

Até aí, tudo bem.

O problema começa quando chegamos ao fim da linha e continuamos.

Não necessariamente porque ainda acreditamos que dará certo, mas porque desistir parece pior.

Depois de tudo o que já investimos, como abandonar?

Depois de todo o esforço, como aceitar que talvez não haja recompensa?

Assumir o fracasso pode parecer mais difícil do que continuar tentando.

Então continuamos.

Mais um pouco.

E depois mais um pouco.

Até que, às vezes, chegamos ao fim exaustos e descobrimos que o troféu não veio.

Santiago consegue o peixe.

Depois de dias de luta, dor, fome e exaustão, ele vence uma batalha que parecia impossível.

Mas não consegue levá-lo para casa.

Do enorme marlim pelo qual quase entregou a própria vida, resta apenas o esqueleto.

Isso torna Santiago um fracassado?

Não acredito que Hemingway ofereça uma resposta tão simples.

Talvez seja justamente por isso que a história permaneça conosco depois da última página.

Existe coragem em continuar quando tudo parece perdido.

Mas existe também uma coragem sobre a qual falamos muito menos: reconhecer quando continuar deixou de ser perseverança e passou a ser apenas incapacidade de desistir.

Saber seguir em frente é difícil.

Saber a hora de largar talvez seja ainda mais.

Existe coragem em continuar quando tudo parece perdido.

Existe coragem em reconhecer que chegou a hora de parar.

O problema é que, enquanto ainda estamos no mar, não sabemos qual delas a vida está nos exigindo.




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